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Capítulo 11 - As Memórias de Clarice

Foi, eventualmente, o Fernando que me levou a casa. Ou direi melhor para casa, visto que ele me levou para a sua e não para a minha. Aquilo que me lembro da casa deve-se ao pequeno-almoço que tomei lá no dia seguinte, pois quando chegámos à noite eu não estava em condições de reparar em nada. Era pequena e acolhedora, com aquele aspecto típico de casa de homem solteiro, no entanto, minimamente arrumada. Ele levou-me para o quarto para eu descansar e tentar curar a bebedeira, mas lembro-me de recusar deitar-me na cama, alegando que se o fizesse algo desastroso poderia acontecer aos seus lençóis. Acabei por cair em cima da cama, por me ter desequilibrado, facto que divertiu o Fernando, que se desatou a rir das minhas figuras. Ficámos a conversar até eu começar a sentir-me melhor e deixar de ver tudo em câmara lenta, até ficarmos os dois sonolentos. Tive que dormir na cama com ele, era a única cama da casa; o sofá da sala era de madeira, e apesar das almofadas serem fofas tive de impedir...

Capítulo 10 - As Memórias de Clarice

Nem sei por onde começar, nem o que hei-de escrever. O mais provável é não acreditar nas minhas palavras . O que quero dizer é simplesmente que a amo; quero pedir perdão por toda aquela situação, mas não consigo conter os ciúmes cada vez que a vejo perto do professor Fernando. Não contei a ninguém o que aconteceu entre nós, e por isso fiquei todo aquele tempo calado, fingindo estar em estado de choque… não sei por quanto mais tempo vou aguentar mentir à minha família, os meus pais já andam desconfiados de que eu ando a esconder alguma coisa. Eventualmente terei de contar a alguém… a não ser que a professora o faça primeiro. Foi isto que li quando retirei o papel que se encontrava dentro do envelope. Não vinha assinado, nem tinha data, nem qualquer tipo de cumprimento, apenas isto. De facto não seria necessária uma assinatura, eu sabia perfeitamente de quem era aquele bilhete que, apesar da declaração de amor simples e directa, me soou bastante a uma ameaça. Uma ameaça leve e subt...

Capítulo 9 - As Memórias de Clarice

O João ficou internado durante uma semana sem dizer uma palavra. Bom, pelo menos era o que me contavam, pois eu não podia ir visitá-lo ao hospital, os médicos achavam que não era aconselhável visto ter sido eu a causa do seu ataque - bem, os médicos diziam que eu tinha sido o alvo do seu ataque, mas eu sabia muito bem que, na realidade, tinha sido a causa. Durante essa semana tentei agir com a maior normalidade possível, tentando-me concentrar nas aulas. No entanto, quando não estava entretida com as explicações sobre a matéria, ou com as conversas com o Fernando, mergulhava no meu sentimento de culpa e sentia-me a afogar. Devo confessar que, se não tivesse sido o Fernando a resgatar-me nesses momentos, eu provavelmente não estaria aqui a contar esta história. Na sexta feira dessa semana acordei com o pressentimento estranho de que algo terrível estava prestes a acontecer; só não esperava que fosse assim tão terrível. Fui dar aulas com uma angústia no peito que me pesava de tal ...

Capítulo 8 - As Memórias de Clarice

Passaram-se quatro dias após o que aconteceu entre mim e o João na arrecadação da escola. Lembro-me que tivemos uma discussão pois eu queria esquecer o que tinha acontecido, mas ele dizia que eu não podia esquecer, pois ele também não esquecia. A sua obsessão por mim estava a tornar-se patológica: seguia-me para todo o lado; se me visse a falar com o Fernando, mais tarde vinha pedir explicações; estava a tornar-se agressivo. Perguntava-me muitas vezes como seria possível um rapaz tão aplicado, gentil e meigo ter-se transformado em algo totalmente oposto. Ao inicio culpava-me, culpava o que tinha acontecido naquela arrecadação, culpava-me por não ter impedido; mas será que tinha realmente culpa? Aquilo aconteceu porque ambos quisemos, ele sabia que eu não podia assumir nenhum compromisso com ele; ele é menor, mas já não é nenhuma criança para não perceber isso. Algo ocorreu-me; talvez tivesse sido a sua primeira vez e isso o tenha deixado com um certo sentimento de possess...

Capítulo 7 - As Memórias de Clarice

Foi extremamente complicado desprezar o João; cada vez que ele intervinha numa aula eu respondia-lhe secamente. Notei claramente a tristeza na sua cara, mas tinha de ser, eu não queria ser despedida. Tinham-se passado quatro dias desde aquele beijo inoportuno; eu estava a arrumar algum material na arrecadação quando senti a presença de alguém, olhei para trás e lá estava ele a olhar para mim. - O que estás aqui a fazer? Não tens aula agora? - A professora faltou. Fechou a porta e, antes que eu me apercebesse, trancou-a. - Importaste de explicar o estás a fazer? Destranca a porta! - Não. Precisamos conversar. - Dá-me a chave! - Não, a Clarice não vai sair daqui enquanto não falarmos. - Muito bem, então começa e sê rápido, tenho mais do que fazer do que estar aqui a ouvir lamurias de um miúdo! - Lamurias de um miúdo?? Aquilo deve ter-lhe afectado a auto-estima, quis provar-me algo, então começou a despir-se. - O que é que estás a fazer?! - A lamuriar-me! -...

Capítulo 6 - As Memórias de Clarice

Não conseguia dormir de maneira nenhuma nessa noite pois a imagem do João e daquele beijo não me saía da cabeça. Só pensava no que teria passado pela cabeça do miúdo para fazer tal coisa sabendo perfeitamente que isso me podia prejudicar enquanto docente daquela escola. Acabei por adormecer devido ao cansaço do cérebro. Acordei suada, olhei para o lado e o João ali estava, deitado a meu lado a dormir. Vi que não tinha roupa alguma no corpo e fiquei sobressaltada; olhei para mim e também eu estava despida. Só pensava no que teria acontecido, não me conseguia lembrar sequer de como tínhamos ido ali parar; o João mexeu-se, abriu os olhos e disse: - Sempre quis que isto acontecesse. De repente senti uma sacudidela, como se alguém me estivesse a abanar com força. As imagens tornaram-se desfocadas e eu abri os olhos. O Fernando estava à minha frente: - Estava difícil de te acordar. Estou aqui há quase 10 minutos a abanar-te. Fiquei aliviada por ter sido apenas um sonh...

Capítulo 5 - As memórias de Clarice

Acatei o que a minha mãe me disse e o Fernando nunca mais foi lá a casa, com muita pena minha. Disse-me que compreendeu, mas no fundo sei que ficou um pouco desapontado. Já não vinha falar comigo com tanta frequência na sala dos professores, nem me oferecia cafés como de costume. Creio que tal situação não se devia apenas ao facto de lhe ter dito que não poderia ir mais a minha casa, mas sim a alguns rumores que corriam pela escola que não abonavam muito a meu favor. Lembro-me que fiquei até um pouco depois da aula ter terminado dentro da sala de aula, pois precisava de acabar de corrigir alguns testes. O João entrou na sala à cautela como se tivesse medo que eu o mandasse embora. João Lopes era o meu aluno mais aplicado, corriam rumores na escola de que o rapaz teria um fraquinho por mim, rumores esses aos quais eu nunca tinha ligado. Era alto, magro mas de corpo atlético, tinha o cabelo castanho e os olhos verdes; tinha dezasseis anos, mas a sua estatura e a sua face já com bar...

Capítulo 4 - As Memórias de Clarice

Acordei na manhã seguinte com a minha mãe a bater-me no braço e a abanar-me com uma tal violência que, no sonho que estava a ter, deu-se um terramoto. Quando abri os olhos vi que me encontrava ainda sentada no sofá com a caneca na mão, tinha a cabeça encostada ao braço direito do Fernando, que estava igualmente a dormir sentado. Olhei para a minha mãe e fiquei surpreendida com a sua expressão de poucos amigos, como se estivesse prestes a ralhar comigo. E foi isso que sucedeu. - O que é que vem a ser isto? - Isto o quê, mãe? - Esta pouca vergonha, achas bem trazeres um homem cá para casa, ainda para mais estando eu a dormir?! - Não é nada disso... - Não me digas que não é o que estou a pensar! - a minha mãe já gritava tão alto que o Fernando acordou. - Mas não é, ele é meu colega, trouxe-me para casa porque o meu carro avariou. Nem era suposto ainda estar aqui, só ficou devido à chuva e devemos ter adormecido. Só isso. - É verdade Sra. Lopes. - Só adormeceram? Hum! Bom, imaginan...

Capítulo 3 - As Memórias de Clarice

Estava um dia muito chuvoso, o Outono tinha chegado em força. Não se viu o sol durante todo o dia e a chuva só parava por escassos minutos voltando logo em seguida como se de um diluvio se tratasse. A escola, apesar das muitas janelas, encontrava-se escura como breu nos sítios em que a luz não tinha sido ligada. As nuvens negras que se viam no céu convidavam a uma noite passada em frente à lareira a beber chocolate quente e, provavelmente, era isso que eu faria quando chegasse a casa visto que era sexta feira. Para culminar o meu dia da pior maneira possível, o lugar onde o meu carro estava estacionado encheu-se de água da chuva, o meu carro deve-se ter afogado pois quando o tentei ligar não dava qualquer sinal de vida! Não tinha como voltar para casa a não ser de táxi, o autocarro já tinha partido há uma hora, não queria gastar tanto dinheiro mas não havia outra hipótese. Quando estava já a pegar no telemóvel para marcar o número da praça de táxis alguém bateu no vidro...

Capítulo 2

Toda a gente, desde professores a funcionários e a alunos, gostavam de Clarice, talvez por ela não ser o tipo de pessoa que se metia na vida dos outros - ela própria não gostava que se metessem na vida dela. Era reservada quanto à sua vida pessoal, gostava mais de ouvir os outros e era extremamente boa a guardar segredos. O mistério que rodeava Clarice era fascinante, despertava a atenção dos mais curiosos, que ficavam sempre no mesmo nível de conhecimento - nenhum, mas houve alguém que sentiu mais do que curiosidade acerca do seu mistério. Bom e a partir daqui, ninguém melhor para descrever os acontecimentos do que a própria Clarice.     As minhas memórias O meu colega, professor de Geografia, era realmente um cromo de pessoa, mas no bom sentido. Era muito distraído e despistado, parecia estar sempre nervoso, principalmente, não querendo parecer presunçosa, quando se encontrava perto de mim. Um dia, na sala dos professores, até entornou uma chávena de café para cima do s...

Capítulo 1

Há três anos atrás Clarice era uma jovem mulher de vinte e sete anos, Professora de Inglês, praticamente acabada de se formar. Desde que se lembra os rapazes caíam aos seus pés, era de facto uma mulher muito atraente, o seu cabelo castanho claro caía-lhe pelas costas terminando em leves ondas, os olhos eram meigos mas audazes, cor de avelã. O seu rosto era delicado e extremamente feminino, não era nem muito pálida, nem muito morena. No entanto, nunca tivera muita sorte no que toca ao amor verdadeiro. Morava em Lisboa, cidade onde estudou, mas quando acabou o curso teve de ir viver para a terra da sua mãe, em Castelo Branco, pois esta encontrava-se doente e precisava de alguém que cuidasse dela. Clarice tinha apenas um irmão mais velho, mas este encontrava-se na Suíça, país para onde emigrou nos anos 90. O pai tinha morrido há dois anos, deixando a mãe sozinha lá na terra, o que só veio agravar a sua doença. A Sra. Lopes sofria de reumatismo e a doença já estava bastante avançada, já ...

Capítulo 0

Estava a pensar na reviravolta que a sua vida deu nos últimos três anos, agora que se encontrava na sua casa, sentada no sofá da sala de estar com a televisão desligada, não tinha sono mas também não lhe apetecia ver nada que pudesse estar a ser transmitido. O resto da família estava já a dormir, por isso tentou fazer o mínimo de barulho quando foi à cozinha buscar uma caneca de leite, antes de se voltar a sentar no sofá e mergulhar nas suas memórias…