Capítulo 9 - As Memórias de Clarice

O João ficou internado durante uma semana sem dizer uma palavra. Bom, pelo menos era o que me contavam, pois eu não podia ir visitá-lo ao hospital, os médicos achavam que não era aconselhável visto ter sido eu a causa do seu ataque - bem, os médicos diziam que eu tinha sido o alvo do seu ataque, mas eu sabia muito bem que, na realidade, tinha sido a causa.

Durante essa semana tentei agir com a maior normalidade possível, tentando-me concentrar nas aulas. No entanto, quando não estava entretida com as explicações sobre a matéria, ou com as conversas com o Fernando, mergulhava no meu sentimento de culpa e sentia-me a afogar. Devo confessar que, se não tivesse sido o Fernando a resgatar-me nesses momentos, eu provavelmente não estaria aqui a contar esta história.
Na sexta feira dessa semana acordei com o pressentimento estranho de que algo terrível estava prestes a acontecer; só não esperava que fosse assim tão terrível. Fui dar aulas com uma angústia no peito que me pesava de tal forma que parecia que tinha uma bola de chumbo no lugar do coração. Quando finalmente o dia de trabalho acabou, fui imediatamente para casa, recusando o convite do Fernando para um café.
- Desculpa, fica para amanhã ou assim... tenho mesmo de ir para casa.
Corri para o carro e cheguei a casa num instante - ou pelo menos assim me pareceu, contrariamente aos momentos que se seguiram.
Entrei em casa e chamei pela minha mãe como sempre fiz, para avisá-la que já tinha chegado. Ao contrário dos outros dias, desta vez não obtive resposta.
- Mãe, estás em casa?
Apenas me foi devolvido um silêncio mórbido. Corri para o quarto. A minha mãe estava deitada na cama a dormir. Senti um arrepio gelado, algo dentro de mim me disse que ela não estava apenas a dormir. Aproximei-me da cama e ajoelhei-me ao lado da cabeceira. Passei-lhe a mão pelo rosto... já se encontrava gelado... o peito não se movia... os lábios descolorados... tudo ficou turvo, e só depois me apercebi que as lágrimas já me escorriam pela cara.
Passou aquilo que me pareceu ser uma eternidade, até que por fim me consegui levantar e telefonar a alguém.
Primeiro liguei ao Fernando, de seguida para a ambulância. Ambos chegaram praticamente ao mesmo tempo. Para ser sincera, não me recordo da viagem até ao hospital, sei apenas que a minha mãe foi directamente para a morgue para ser autopsiada. Na verdade não havia muito que eu pudesse fazer lá no hospital, mas acho que no fundo eu ainda não acreditava no sucedido e fiquei à espera que algum médico aparecesse e me dissesse:
- A sua mãe está bem, foi apenas um susto.
O que, logicamente, não aconteceu. O Fernando teve de me arrastar, quase literalmente, para fora do hospital para me levar a casa.
- Isto é apenas um pesadelo, não é?
- Vais ficar bem, eu estou aqui.
- Já não faz sentido eu estar aqui. Que sentido isto faz?
- Tens os teus alunos, tens-me a mim. Mas não penses nisso agora, precisas de descansar.
Quando adormeci, mal eu sabia que esta tinha sido apenas a primeira pedra da derrocada que aí vinha.

***

A minha mãe morrera de paragem cardíaca, morte natural. O funeral da minha mãe juntou a freguesia inteira. Eu decidi não ficar mais do que dois dias em casa sem dar aulas, apesar do director me ter oferecido mais uns dias caso precisasse, pois estar naquela casa sozinha tinha-se tornado numa autêntica tortura, do que eu precisava era de ocupar a cabeça.
A primeira aula que dei após a morte da minha mãe coincidiu com a primeira aula à qual o João assistiu depois de lhe ter sido dada a alta. Aquele que se encontrava na penúltima carteira da fila do meio era um João completamente diferente: não participou na aula nem uma única vez, evitou o contacto visual durante os 90 minutos, mantendo a cabeça baixa a olhar para o caderno, e saiu às pressas da sala no final.
À hora de almoço dirigi-me à sala dos professores para ir buscar o meu almoço, que tinha lá deixado de manhã; dentro do saco térmico, por cima do tupperware encontrava-se um envelope em branco. 

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