Capítulo 5 - As memórias de Clarice

Acatei o que a minha mãe me disse e o Fernando nunca mais foi lá a casa, com muita pena minha. Disse-me que compreendeu, mas no fundo sei que ficou um pouco desapontado. Já não vinha falar comigo com tanta frequência na sala dos professores, nem me oferecia cafés como de costume. Creio que tal situação não se devia apenas ao facto de lhe ter dito que não poderia ir mais a minha casa, mas sim a alguns rumores que corriam pela escola que não abonavam muito a meu favor.

Lembro-me que fiquei até um pouco depois da aula ter terminado dentro da sala de aula, pois precisava de acabar de corrigir alguns testes. O João entrou na sala à cautela como se tivesse medo que eu o mandasse embora. João Lopes era o meu aluno mais aplicado, corriam rumores na escola de que o rapaz teria um fraquinho por mim, rumores esses aos quais eu nunca tinha ligado. Era alto, magro mas de corpo atlético, tinha o cabelo castanho e os olhos verdes; tinha dezasseis anos, mas a sua estatura e a sua face já com barba cerrada, embora sempre feita, faziam-no parecer mais velho. Aproximou-me da secretária e falou:
- Estou a incomodar, professora?
- Bom depende, se vieste tirar alguma dúvida sou toda ouvidos, caso contrário vais ter de me deixar acabar de corrigir os testes.
- Sim venho tirar uma dúvida. - respondeu hesitante.
- Então e qual é?
- Não tem a ver com a matéria professora.
- Tem a ver com o quê? Se precisas de ajuda por alguma razão diz; estou a trabalhar mas se for grave isto pode esperar.
- Queria fazer-lhe uma pergunta, sem querer faltar ao respeito. E, - continuou ele quando viu que eu ia começar a falar - deixe-me falar até ao fim primeiro. Alguma vez gostou de alguém mais velho por quem não era suposto se apaixonar, pois sabia que infringia regras, mas ao mesmo tempo não conseguia evitar os batimentos acelerados do seu coração de cada vez que via essa pessoa?
- Bem... assim de repente, acho que não. Mas porque queres saber isso?
- O que acha que uma pessoa deveria fazer numa situação destas?
- Não sei, por um lado penso que o amor não escolhe idades, mas se infringe regras se calhar não é boa ideia insistir nele. Mas... não me respondeste... porque é que queres saber?
O João saiu do local onde se encontrava: em frente à minha secretária; contornou-a fazendo-me rodar a cadeira para o lado esquerdo de modo a ficarmos frente a frente. Colocou as mãos em cima dos braços da cadeira e, antes que eu tivesse tempo de reagir, beijou-me. Não sei quanto tempo durou, mas pareceu uma eternidade desde que os nossos lábios se tocaram, fazendo-me sentir os seus macios, jovens e quentes, até que se separaram. Sei que aquilo não devia ter acontecido, no entanto não posso dizer que me foi completamente indiferente. Ele saiu sem dizer palavra e eu calada fiquei, talvez devido ao choque.

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