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Amargas Recordações

A última recordação que tenho não é perfeita nem nítida. Lembro-me de estar no baptizado da Cláudia, mas não me lembro da cerimónia em si, apenas do almoço. Recordo-me que estava na mesa com as minhas irmãs e os meus primos; lembro-me dos meus pais, dos meus tios, do Sr. Jaime e da Dona Clotilde, talvez só me lembre de nós porque fomos os únicos a aproveitar a festa. Não me recordo da tua cara, de te ver lá, de como estavas vestido ou sequer de ter falado contigo. Em contrapartida, lembro-me da cara dela com a menina ao colo; é frustrante lembrarmo-nos de quem não gostamos e não de quem nos é querido.
Recordo-me bem mais nitidamente do que aconteceu quando chegámos a casa; de o meu pai estar alterado, de ouvir o abajur de vidro do candeeiro da mesa de cabeceira do quarto dos meus pais a partir, de ouvir a minha mãe a chorar, de estar no quarto da minha irmã mais velha, sentada na cama com as minhas irmãs e de ter desatado a chorar também.
Lembro-me que, nos dias que se seguiram, recebemos telefonemas estranhos em que a pessoa que estava do outro lado não falava e de termos desconfiado que seria ela a tentar atormentar-nos.

Mas se recuarmos mais no tempo apenas me recordo de que gostava muito de ti, mas memórias concretas não consigo ter. Não consigo ter recordações tuas da mesma maneira que tenho das minhas irmãs e dos meus primos; olho para certas fotografias e não me lembro de as ter tirado, ou de estar naquele sítio contigo presente.
É como se o passar dos anos tivesse feito com que eu me esquecesse daqueles momentos. O cérebro faz coisas incríveis, talvez o tenha feito para o sofrimento não ser tão grande.

Pergunto-me por que só agora me dei conta disto, a resposta é simples: passei todos estes anos sem notícias tuas, é como se não precisasse de me lembrar de ti, até porque não me convinha, para não sofrer. De repente dás notícias e eu, apesar de ter ficado muito feliz, não me emocionei da maneira que sempre achei que iria; tentei sentir o mesmo que elas, mas não consegui, foi quase uma sensação de indiferença. Tentei vasculhar memórias e não as encontrei.

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