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Capítulo 4 - As Memórias de Clarice

Acordei na manhã seguinte com a minha mãe a bater-me no braço e a abanar-me com uma tal violência que, no sonho que estava a ter, deu-se um terramoto. Quando abri os olhos vi que me encontrava ainda sentada no sofá com a caneca na mão, tinha a cabeça encostada ao braço direito do Fernando, que estava igualmente a dormir sentado. Olhei para a minha mãe e fiquei surpreendida com a sua expressão de poucos amigos, como se estivesse prestes a ralhar comigo. E foi isso que sucedeu.
- O que é que vem a ser isto?
- Isto o quê, mãe?
- Esta pouca vergonha, achas bem trazeres um homem cá para casa, ainda para mais estando eu a dormir?!
- Não é nada disso...
- Não me digas que não é o que estou a pensar! - a minha mãe já gritava tão alto que o Fernando acordou.
- Mas não é, ele é meu colega, trouxe-me para casa porque o meu carro avariou. Nem era suposto ainda estar aqui, só ficou devido à chuva e devemos ter adormecido. Só isso.
- É verdade Sra. Lopes.
- Só adormeceram? Hum! Bom, imaginando que eu acredito em vocês, sendo assim já se pode ir embora, para que eu possa falar com a minha filha.
Eu nem quis acreditar na maneira como a minha mãe despachou o Fernando, ele deve ter ficado constrangido com tanta animosidade da parte dela. A minha mãe era bastante religiosa, o que é compreensível para uma pessoa da idade dela, que na altura tinha já 70; durante a sua educação foram-lhe incutidos todos esses valores defendidos pela Igreja Católica, mas não estava à espera de uma reacção assim.
- Bom agora que aquele homem se foi embora...
- Aquele homem chama-se Fernando, mãe.
- Que seja, não me interrompas. Como estava a dizer, agora que ele se foi embora vamos conversar.
- Mãe, não acha que já passei um pouca da idade de termos esta conversa, não há nada de novo que me possa dizer.
- Como te atreves a dizer uma coisa dessas, eu não quero saber... sei bem que vocês hoje em dia são muito liberais, mas quanto a pormenores prefiro permanecer na ignorância!
- Então o que tem para me dizer?
- Não quero que voltes a trazer nenhum homem cá para casa...
- Mas não aconteceu nada, já lhe disse!
- Eu acredito em ti, mas mesmo assim não quero! Eu acredito em ti porque te conheço, não fosse eu tua mãe, mas as outras pessoas não... o que achas que vão, ou estão já a pensar as pessoas quando viram um homem a sair daqui de casa de manhã??
- Eu estou-me nas tintas para o que as pessoas pensam! Não fiz mal nenhum!
- Mas não estou eu! Ou fazes o que te estou a mandar ou podes voltar para Lisboa, que eu prefiro morrer aqui sozinha!
E com isto dito, voltou-me as costas e foi em direcção à cozinha tomar o pequeno-almoço, eu fui apenas uns minutos depois, precisei de digerir o que acabara de ouvir antes de pôr qualquer coisa no estômago.

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